A força das mulheres amazónicas nasce também dos vínculos que constroem entre si, nos territórios e nas comunidades. Ao partilharem experiências, saberes e práticas de cuidado, reconhecem que as suas histórias estão ligadas e que a organização coletiva é essencial para enfrentar as violências e fortalecer a resistência. Ao reunir mulheres de diferentes territórios, a “Rede Soma dos Quintais”, da Amazónia Brasileira, reafirma que cuidar também é um ato de resistência e de transformação. O encontro efetuado possibilitou reconhecer desafios comuns, fortalecer alianças e partilhar caminhos para que cada mulher não tenha de enfrentar sozinha as violências e as ameaças que atravessam as suas vidas. Nesta soma de experiências, a memória e os saberes ancestrais tornam-se sementes de esperança, autonomia e organização coletiva. Essa interligação manifesta-se nos gestos quotidianos de apoio, na escuta e na partilha de conhecimentos que atravessam gerações. Ao reconhecerem a importância de cada história e de cada território, as mulheres fortalecem uma rede de cuidado capaz de transformar dores individuais em força coletiva.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – da Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil, acompanha e apoia as lutas dos povos indígenas da Amazónia, contribuindo para dar visibilidade às vozes e às experiências das mulheres indígenas. A participação de mulheres ligadas em espaços como o Seminário da “Rede Soma dos Quintais” reforça a importância da articulação, da memória e dos saberes ancestrais na defesa dos territórios e no enfrentamento das violências. Ao partilharem as suas histórias e práticas de cuidado, estas mulheres fortalecem redes de resistência e esperança. É nessa teia de relações que o cuidado deixa de ser uma responsabilidade individual e passa a constituir uma prática coletiva. Cada encontro, escuta e gesto de solidariedade contribui para fortalecer a autonomia das mulheres e reafirmar a defesa dos seus territórios, dos seus corpos e dos seus modos de vida. Quando as mulheres se reconhecem umas nas outras, encontram coragem para continuar a luta e criar formas de resistência. A “soma desses quintais” revela que ninguém caminha sozinha: as memórias partilhadas alimentam a esperança e abrem caminhos para um futuro construído em comunidade. A rede é identificada como “Rede Soma dos Quintais”, Bioma Amazônia, uma articulação de mulheres e organizações de defesa dos direitos das mulheres da Amazónia. A rede promove encontros para o autocuidado, o cuidado coletivo, a troca de saberes e o fortalecimento da organização e da resistência das mulheres, valorizando as suas memórias, culturas, afetos e práticas de cuidado e do Bem Viver.
“Estar com vocês hoje é lembrar que eu estou viva ainda, independentemente de ter depressão, de ter violência, de sofrer ameaça, eu estou viva, eu tenho minha vida. E eu estou aqui compartilhando com vocês sem medo. Sem medo de ser mulher, de ser eu indígena, de contar a história da cultura do meu povo, do que eu estou aprendendo com o meu povo”. Assim se manifestou Larissa Karitiana, integrante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Rondônia, sobre como se sentiu ao participar do Seminário da Rede Soma dos Quintais, Bioma Amazônia, realizado de 25 a 27 de setembro, na Chácara Dom Luciano, em Manaus.
Especifica o comunicado do Cimi que: “Um quintal é um espaço externo de uma casa, normalmente utilizado para o cultivo de plantas ou para convívio familiar ao ar livre. Um ambiente que contribui com a saúde dos moradores e que, geralmente, é organizado e mantido pelas mulheres. Com essa perspectiva do cuidado, o “Soma dos Quintais traz a ideia de que cada mulher carrega um quintal – um espaço de vida, memória, saberes, afetos, plantas, histórias, práticas de cuidado e resistência. Quando esses diferentes quintais se encontram, eles se somam e formam uma força coletiva”.
“Nós, mulheres Karitiana, fazemos de tudo para carregar o conhecimento. Trazer e levar para a nossa comunidade os conhecimentos que vamos juntando com o compartilhamento de outras sabedorias de outras mulheres. Onde a gente vai, não vai sozinha, nós levamos alguém. Eu estou aqui e já estou passando para minhas lideranças. Depois, já vai vir outra jovem que vai para um outro encontro lá. Então, nós sempre estamos interligadas”, explica outra participante. “Nos momentos em que cada uma trouxe sua história, suas realidades, enfrentamentos, desafios e conquistas, era possível conhecer os quintais das participantes. Os temas Floresta e Água orientaram as exposições e construíram o “Mapa Vivo dos Territórios – Cartografando os Quintais da Vida”, registando localidades e ações das mulheres em seus territórios. Fluindo como as águas dos rios da Amazônia que seguem interligando-se até integrarem-se ao oceano, o tema “Dos Quintais aos espaços de decisão” orientou as mulheres para a reflexão sobre a força da sua ação local fluindo para a participação política através de estratégias de incidências em espaços de decisão.”
“As mulheres indígenas são as principais guardiãs da ancestralidade e saberes tradicionais. Assim, trouxeram seus quintais para somar na luta em defesa da vida, direitos e territórios de todas as mulheres. “Na nossa cosmovisão, o rio tem sentido se o povo sobrevive nele. Ora é nossa divindade da água. Quando nós cuidamos do rio, nós estamos cuidando. Por isso, as gerações que estão chegando estão sendo convidadas a continuar preservando a ancestralidade que vem dos povos que estiveram há anos nessas águas, construindo resistência em defesa da nossa vida na Amazônia. Nós, juventude, temos que não só renovar, mas continuar um legado, uma missão que foi nos entregue”. cita o comunicado.
Joaquim Armindo – Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental e Diácono da Diocese do Porto – Portugal






