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O terrorismo é uma real ameaça para o Brasil? (Por ocasião das eleições políticas 2026)

“Despertar um sonâmbulo é uma empresa arriscada, pois ele adora ‘perambular’ no seu sonho. Despertar para a realidade é doloroso para um sonâmbulo, pois a quimera é tão atrativa e sedutora, a falsa segurança é tão fácil a ser abraçada e são tantos os/as sedutores/as ‘credenciados/as’, que a tarefa de acordar o povo resulta sendo nada fácil e exige muito amor, muita energia e muita coragem”, escreve Eduardo Hoornaert, historiador, ex-professor e membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA).

Segundo ele, “mesmo assim, precisa partir para o diálogo com o povo e assim, aos poucos, ajudá-lo a limpar sua mente de feitiços provocados por discursos artificiais, meias-verdades, mal-entendidos, preconceitos. Precisa urgentemente proteger a cultura ‘ordinária’ de pessoas ‘comuns’, ou seja, de todos nós”.

Eis o artigo.

Nas últimas semanas, o tema da insegurança pública no Brasil vem despontando como aglutinador de votos nas próximas eleições políticas do 04/10/2026. Os candidatos se apressam a apresentar soluções para o problema, Aparecem nomes novos, como o de Bukele, presidente de El Salvador e organizador de super-presídios em seu país. Aparecem igualmente noticiários acerca do Primeiro Comando da Capital (PCC), que surgiu em 1993 num presídio de Taubaté, estado de São Paulo, após o massacre de Carandiru (1992) e que conta com aproximadamente 40 mil integrantes. O PCC visa conseguir melhores condições carcerárias e maior controle de abusos. Atualmente existe em mais ou menos 20 países pelo mundo afora, inclusive em Portugal e na Espanha. O Comando Vermelho (CV), por sua vez, surgiu em 1979 no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, estado do Rio de Janeiro. Resulta da convivência entre presos comuns e presos políticos durante a ditadura militar (1964-1980). Em junho 2026, ambas as organizações foram taxadas de ‘organizações terroristas’ em documentos do governo norte-americano, enquanto o governo brasileiro as qualifica de ‘criminosas’. Há quem assevera que as periferias de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro seriam dominadas por esses e outros grupos ‘fora da lei’.

Tudo isso amedronta e o tema do ‘terrorismo’ ganha progressivamente espaço. É nesse contexto que eu gostaria de tecer aqui algumas considerações acerca da diferença entre ‘organização terrorista’ e ‘organização criminosa’.

Uma perspectiva histórica

Ao contrário do que aparece à primeira vista, o discurso sobre terrorismo pertence a um tipo de discurso de antiquíssima tradição na cultura ocidental, um discurso que tem como caraterística ‘designar coisas por meio de palavras’. É o que aparece num voo superficial sobre alguns momentos marcantes do último milênio.

– Em 1095, o Papa Urbano II convoca os cristãos para uma cruzada contra muçulmanos. Em seu discurso, ele afirma que ‘Dieu veult’ que cristãos combatam muçulmanos, por eles serem infiéis. Sem conhecer pessoalmente o islamismo, o papa o ‘designa’ como movimento ‘terrorista’ (para falar em linguagem de hoje). Resultado: entre 1095 e 1291 se organizam dezenas de ‘cruzadas’, expedições de combate em terra palestina, que resultam num sem-número de mortes.

– Entre o remotíssimo ano 1022 e o recentíssimo ano 1965, a Inquisição reina soberana na Igreja Católica. De caráter explicitamente designativo, ela marca a história do Ocidente desde o processo contra Joana d’Arc em Orléans, na França e é assumida pelo pontificado romano em 1542. A Inquisição mandou queimar milhares de ‘hereges’ sob a alegação que eles seriam prejudicais para a fé (ou seja, terroristas). Um dos processos mais conhecidos se articula contra Giordano Bruno, um intelectual italiano que em 1582 publica um livro que o leva à morte: ‘designado’ como herege, ele é queimado vivo no Campo dei Flori, em Roma, no ano 1600.

– No ano 1326, o Papa João XXII manda instalar processos inquisicionais contra as chamadas bruxas, mulheres que têm a coragem de sair do ‘padrão’, e seu ordenamento é renovado pelo Papa Inocêncio VIII em 1484. Calcula-se que, ao longo dos séculos XV e XVIII, entre 40 mil e 50 mil mulheres foram queimadas vivas, um pouco por toda a Europa Ocidental, por serem ‘designadas’ como ‘bruxas’, terrores’ para homens.

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– O frade agostiniano Martinho Lutero intenta uma reforma da Igreja Católica por meio da volta à leitura bíblica, após séculos de catequese exclusivista. Ele não pensa em formar uma igreja dissidente da romana, mas, à sua revelia, durante o ano em que ele se refugia no Castelo de Wartburg (1521), alguns de seus seguidores criam, em alguns condados da Alemanha, uma igreja dissidente, que ele tem de aceitar. O termo protestante, de caráter designativo, é lançado no Concílio de Trento e está na origem de séculos de desentendimentos e separações. Aconselha-se aos católicos fugir do ‘terror’ protestante.

– Entre 1559 e 1966 vigora, no seio da Igreja Católica, um Index (Syllabus) Librorum Prohibitorum, que condena praticamente todos os pensadores modernos relevantes: Galileu, Calvino, Maquiavel, Bruno, Descartes, Pascal, Milton, Locke, Bacon, Montaigne, Spinoza, Malebranche, Montesquieu, Voltaire, Diderot, Hume, JJ Rousseau, Darwin, Kant, Balzac, Renan. Ainda no século XX entram H. Bergson, JP Sartre, S. de Beauvoir e A. Gide. Sob a designação de serem descrentes, terroristas da fé do povo.

– Entre 1964 e 1980 vigora no Brasil uma intensa perseguição aos ‘comunistas’. No muro da residência de Dom Helder Camara em Recife aparecem as siglas CCC: ‘Comando de Caça aos Comunistas’. Basta seguir o bispo para ser designado como comunista, terrorista da ordem pública.

Eu não alongo aqui a lista de palavras designativas e ‘terrorizantes’, criadas ao longo da história: ‘pagão, primitivo, atrasado, subdesenvolvido, ignorante, vagabundo, imoral, fanático, selvagem, bárbaro, não civilizado, comunista, subversivo, judeu, islamita, africano, negro’, etc.

A designação

O termo ‘designação’ me veio ao ler um texto de Santo Agostinho, de mais de quinze séculos atrás. Na parte 01, seção 08 de suas Confissões, o ilustre Padre da Igreja explica como, ainda criança, aprende a falar. Ele conta que vê os adultos se virar para um determinado objeto e, ao mesmo tempo, dizer a palavra ‘cadeira’. Assim aprendi a falar, escreve Agostinho. E aí ele tira uma conclusão no mínimo temerária: Verba signa rerum (palavras sinalizam coisas). Toda palavra designa algo real, toda palavra é designativa.

Palavras sempre sinalizam coisas? Como acabamos de ler, muitos termos, que se usam hoje e se usaram no passado, pretendem ser ‘designativos’ sem o ser. Não dá para colar simplesmente o termo ‘infiel’ sobre o islamismo, nem taxar o intelectual medieval independente de ‘herege’, a mulher inovadora de ‘bruxa’, o ‘evangélico’ de ‘protestante’, o pensador moderno de ‘descrente’ e quem opta hoje pelos pobres de ‘comunista’.

Em outras palavras, não dá para dizer que nossos conceitos ‘captam’ a realidade sem mais nem menos. Quando você junta palavras e, com elas, constrói uma frase, uma sentença, um discurso, um artigo, um livro, uma teoria, sua pressuposição pode consistir em pensar que se consegue ‘pegar’ a realidade por meio de palavras, como se pega uma maçã por meio da mão. Há um substantivo, em alemão, que expressa esse ‘pegar’ de modo expressivo: ‘Begriff’. Esse substantivo deriva do verbo ‘greifen’, que significa: pegar algo por meio do dedo polegar. O dedo polegar humano permite ‘segurar’ ou ‘captar’ um ‘objeto’. A língua latina diz o mesmo com o verbo ‘capere’: captar, segurar. Veja igualmente o substantivo ‘conceptus’ (em latim), ‘conceito’ (em português).

Na realidade, todos/as sabemos que nem toda palavra é designativa ou definidora. Pelo contrário, sabemos que a maioria das palavras não designa nada, não define nada. Umas expressam uma ordem, um desejo, uma exortação, outras um sentimento, uma intuição, uma imaginação, um enigma, uma poesia, um cálculo, um pedido, um agradecimento, uma oração etc. É verdade que toda palavra tem um significado, mas isso não quer dizer que toda palavra sirva para indicar ou designar algo. A linguagem humana está repleta de significados não definidos. O reconhecimento por assim dizer intuitivo do significado de palavras por meio do modo comum de agir das pessoas, das fisionomias, do andar, do baixar ou levantar de olhos, de gestos, entonações, inclinações do corpo, enfim, por meio dos mais variados sinais, constitui nosso modo normal de entender (ou não entender) as coisas ao nosso redor.

O conceito é uma simplificação perigosa. Pode servir para fins nada justificáveis, como assinala de modo impressionante o poeta indiano Rabindranath Tagore (1861-1941), quando ele descreve como os colonizadores ingleses entraram na Índia armados de seus conceitos e que os labirintos conceituais, que eles construíram, lhes permitiram justificar a dominação colonial.

Já pensaram quanto de conquistador,
para não dizer de ladrão ou assaltante,
há na expressão ‘conceito’?
Ora, é por meio de conceitos que (os ingleses) se dirigem ao mundo.
(Jung, C. J., Man and his Symbols, Doubleday & Company Inc., New York, 1964)

A reviravolta linguística

Foi na virada entre o século XIX e XX que o filósofo alemão Frege finalmente cunhou uma frase que ajuda a sair do sonho designativo: uma palavra só ganha sentido quando está inserida num discurso situado no tempo e no espaço, ou seja, ‘em contexto’. Em outras palavras: não há texto sem contexto. A palavra desconectada do contexto não significa nada. A palavra solta é como aquela peça do jogo de xadrez que, deitada ao lado do tabuleiro, não significa nada. É uma pecinha de madeira, plástico ou marfim. Mas quando fica montada no tabuleiro, ela ganha significado, vira ‘bispo’, ‘rainha’, ‘torre’, ‘cavalo’. Entra no ‘jogo’ significativo.

Definições pretensamente designativas metem as pessoas num labirinto, do qual elas mal conseguem sair. Eis o papel sinistro e mortífero dos grandes meios de comunicação hoje: deixar as pessoas vagarem por labirintos de palavras pretensamente verdadeiras. O labirinto tem saída, mas ninguém a encontra, tamanho o poder do engodo.

Eis um tema que grandes filósofos do passado, como Platão, Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino, praticamente não abordam em seus escritos. Eles parecem não se dar conta da importância de se esclarecer o teor correto de palavras e assim premunir as pessoas contra o perigo de palavras ‘designativas’ sedutoras.

Os filósofos linguistas do século XX, inspirados por Frege, são a exceção. Vale a pena se deixar inspirar por gente como Bakhtin, Ricoeur, Wittgenstein, Chomsky ou Propp, como recomenda o filósofo cearense Manfredo de Oliveira em seu livro Reviravolta linguístico-pragmática na Filosofia Contemporânea (Loyola, 1997).

O terrorismo é uma real ameaça para o Brasil?

Retornemos à pergunta que encabeça este texto: O terrorismo é uma real ameaça para o Brasil? Agora temos condições de responder, pois incluímos o ‘terrorismo’ entre as sucessivas ‘designações’, que motivaram e movimentaram populações inteiras no passado, como as lutas contra chamados ‘infiéis, hereges, bruxas, protestantes, descrentes, comunistas’.

Como descrever a situação em que nos encontramos? Numa recente investigação, feita na França, sobre o comportamento político dos/as franceses/as, se constatou que, entre as ‘pessoas comuns’, uma esmagadora maioria se mostra incapaz de distinguir entre informação neutra e objetiva e propaganda destinada a influenciar. Muitas ‘notícias’ são tudo menos notícia. O filósofo Edgar Morin, ao comentar esse dado disse que muitos/as de seus/suas compatriotas são ‘sonâmbulos/as’.

A imagem insinua que a maioria da população se comportaria como se estivesse encantada, pronta a acreditar em qualquer coisa que a mídia, os autores e os ‘influenciadores’ dissessem ou escrevessem, indiferentemente. A razão dessa ingenuidade seria o fato de as pessoas tenderem a acreditar, à primeira vista, em tudo que vai formalmente publicado e transmitido, atribuindo erradamente alguma virtude oficial a grandes meios de comunicação, como publicações periódicas impressas e audiovisuais, livros e similares, programas de TV e Internet.

Então, quanto maior for o número de pessoas verdadeira ou aparentemente envolvidas na publicação/difusão de um fato ou de uma falácia, mais verdadeiro/a ele/ela parece ser na compreensão das massas. Além disso, quanto maior for o número conhecido de pessoas que assistiram, ouviram ou leram o fato ou a falácia, maior será a probabilidade de que esse fato ou essa falácia se torne ‘verdade’, na compreensão das referidas massas. Daí a importância que se atribui a algoritmos que registram o número de ‘seguidores/as’ em programas de internet. Tudo é feito para que se impeça que as massas populares ‘acordem’ e compreendam que elas são, na verdade, enganadas permanentemente, e por que métodos e truques eles o são, uma vez que o governo do país também fabrica e espalha falácias.

Enfim, reina entre os/as comunicadores/as uma norma nunca explicitada: O povo dorme, melhor não acordá-lo. Eis uma recomendação que nos vem de séculos atrás. Pois o sonâmbulo não gosta de ser acordado, ele ‘ama’ sua imagem fantástica, suas ilusões, seus sonhos, enfim, seu projeto inalcançável. O povo dorme e a grande mídia gosta que ele continue dormindo. Assim reinam discursos artificiais, fabricados com a intenção de defender interesses particulares. Quando a TV Globo nos brinda diariamente com futebol, novela, entrevistas, Big Brothers, etc., ela não faz senão seguir uma tradição multimilenária, que consiste em divertir o povo para que ele não acorde e enxergue a real situação em que vive.

Despertar um sonâmbulo é uma empresa arriscada, pois ele adora ‘perambular’ no seu sonho. Despertar para a realidade é doloroso para um sonâmbulo, pois a quimera é tão atrativa e sedutora, a falsa segurança é tão fácil a ser abraçada e são tantos os/as sedutores/as ‘credenciados/as’, que a tarefa de acordar o povo resulta sendo nada fácil e exige muito amor, muita energia e muita coragem.

Mesmo assim, precisa partir para o diálogo com o povo e assim, aos poucos, ajudá-lo a limpar sua mente de feitiços provocados por discursos artificiais, meias-verdades, mal-entendidos, preconceitos. Precisa urgentemente proteger a cultura ‘ordinária’ de pessoas ‘comuns’, ou seja, de todos nós.

Foto de portada:https://www1.folha.uol.com.br/

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